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Dor funcional

No dia 14 de março, nesta segunda-feira, a associação internacional para o estudo da dor divulgou o dia da dor funcional. Mas o que seria essa dor? Por que um dia para essa dor?


No passado a dor era associada a lesão e ponto final. Um verdadeiro desacato a individualidade, variabilidade e heterogeneidade à complexidade do ser humano.


Na última década a compreensão da dor está inserida em um paradigma onde ela está associada a outras condições de saúde, pode ou não estar ligada a comorbidades físicas e emocionais; mas com certeza está vinculada a perda da qualidade de vida e perda da funcionalidade.

A dor poderia ser por uma inflamação, por uma lesão no tecido nervoso, mas também pode ser por uma alteração nos circuitos cerebrais de interpretação, como a dor da fibromialgia, a dor lombar sem causa específica (aquela pessoa que tem dor mas nenhum exame de imagem explica).


A dor tem diferentes funções e em nossa evolução histórica ela é um fator importante para garantir a sobrevivência da espécie. Mas essa interpretação do evento é ajustada de acordo com o meio onde estamos.


Por exemplo, estou aqui conversando com vocês e de repente esbarro a minha mão na cadeira.


Eu penso: "Ai! Doeu!"

Meu cérebro: Ai doeu!

- então vamos avaliar a situação:

a batida foi porque você estava desatenta, e não percebeu que tinha um móvel ao seu lado. Isso não impõem nenhum risco à sua saúde. Pode continuar a conversar com o pessoal. E vamos ficar mais atentos aos movimentos dos braços.


À noite, durante o banho, percebo que tenho um roxo no braço...

penso... lembro vagamente que em algum momento eu esbarrei em algo, mas não consigo lembrar de quando aconteceu.


O evento nem foi registrado direito pelo meu cérebro. Ele decidiu que não era mesmo importante.

Pois é, com o nosso cérebro temos o poder de definir o que será importante ou não para registrar na memória. Quem já sofreu um acidente de carro, por exemplo, lembra em detalhes alguns momentos. Algumas situações de risco são tão impactantes que parece que levaram horas e não segundos para acontecer.


Essa dinâmica está relacionada ao julgamento do cérebro sobre estímulo que causou dor e as expectativas que temos da situação. As vezes de forma a conseguir produzir uma analgesia.


No dia a dia da clínica de dor nos deparamos muito com uma situação inversa, contrária! Onde a pessoa descreve a sua dor mas ela parece desproporcional ao que vemos.


Mas a dor não é vista, ela é sentida, é relatada e é empática.


Os casos mais comuns dessas dores são as dores nas costas sem causa específica, a dor da fibromialgia, síndrome regional de dor complexa. Essas são estudadas há muitas décadas, a incapacidade física, a dor funcional por não conseguir mais pegar o filho no colo, não conseguir se abaixar … essa talvez seja a dor funcional mais “famosa”.



Mas existe outra, e que anda bem marginalizada, negligenciada… a dor funcional associada aos distúrbios e disfunções neurológicas do movimento. Você sabia que 2 em cada três pacientes que têm distúrbio neurológico do movimento humano também sente dor?


Pois é, disfunções e doenças como o Parkinsonismo tem um foco de estudo na funcionalidade, no movimento, mas a dor associada tem sido negligenciada, tanto na clínica quanto na própria pesquisa. Há um desafio grande para nos permitir entender melhor os mecanismos que explicam a dor funcional.

Apesar de “parecida" com a dor da fibromialgia (dor nociplástica) não temos elementos sucintos para explicar essa disfunção. Mas sabe-se que o tratamento parecia investigar as características de cada dor, e ter um olhar sobre a dor que incapacita.


Sabemos que assim como as outras dores, a emoção, a compreensão e as interpretações influenciam para aumentar ou diminuir a intensidade da dor. Mas a dor funcional, parece ter um algo a mais que precisamos investigar.


A pesquisa começa no um a um. Profissional da saúde e paciente; as vezes a família também consegue ajudar muito na compreensão do que está acontecendo. E cada vez mais as pesquisas apontam que, no caso do Parkinson, a dor funcional parece ser o primeiro sintoma antes dos sinais clássicos de tremores e rigidez da doença.


Lembrando que o tratamento precoce muda o futuro! A velha história de cortar o mal pela raiz. Quanto antes agirmos, melhor o resultado, mais suave a progressão de uma doença.


E, dor, tem que tratar! Não é uma mágica, mas um processo, e temos que dar o primeiro passo.




COLUNA SAÚDE COM PROTAGONISMO

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